Como pessoas boas se tornam más

Fonte: Visão

O que faria se tivesse poder total sobre alguém? A experiência foi realizada há mais de quatro décadas e o psicólogo social que a coordenou apelidou o fenómeno de Efeito Lúcifer

Um exibicionista abre o casaco diante de uma mulher com burka. No momento seguinte (ou na tira de BD seguinte) constata, aterrado, que ela retribui o gesto, revelando as munições sob a indumentária. No rescaldo dos atentados terroristas que ensombram os dias europeus, este cartoon, que me chegou pelas redes sociais, levou-me a pensar na função que o humor negro pode ter, enquanto antídoto para a crueldade. Além da óbvia vantagem de não ser uma passagem ao ato, tem o mérito de tornar suportável, pela via lúdica, uma evidência sombria e tenebrosa até, da natureza humana: a de que todos nós, em circunstâncias propícias, podemos tornar-nos monstros. 

Ainda era verão e não sonhávamos com o que aí vinha quando um tema velho voltou à ribalta, sob novas roupagens. Refiro-me ao filme The Stanford Experiment, realizado por Kyle Patrick Alvarez e inspirado em acontecimentos reais, que tiveram lugar num outro verão, em 1971. Classificado no género drama/thriller, e premiado no Festival de Cinema de Sundance, nos Estados Unidos, o filme é uma adaptação do livro Efeito Lúcifer(2007), do psicólogo social e investigador Philip Zimbardo. Ou o homem que ficou célebre devido a uma das mais controversas experiências sobre a natureza humana. A ideia era simples: simular o ambiente prisional durante 14 dias, na cave do Instituto de Psicologia da Universidade de Stanford; atribuir, ao acaso, o papel de prisioneiro e de guarda prisional a 24 jovens universitários, todos do sexo masculino; e avaliar os efeitos dessa dinâmica de grupo, filmadas por câmaras de vigilância.

Take 1. Logo no primeiro dia, os 'guardas', nos seus uniformes, prendem e enfiam os 'prisioneiros' na 'cadeia', um corredor de salas de aula vazias convertidas em celas.

Take 2. Os 'guardas' pedem-lhes para se despirem, pulverizam-nos com desinfetante, humilham-nos de várias formas; obrigam-nos a ficar em silêncio, a tratar os guardas com deferência.

Take 3. Não tardou que os 'presos', solidários, se unissem contra o grau de violência a que eram expostos e alguns fossem forçados a passar longos períodos num armário escuro, o 'buraco'.

Take 4. Todos os participantes levaram os seus papeis de tal modo a sério que naquele ambiente, sufocante e explosivo, a experiência teve de ser interrompida no sexto dia.

Na qualidade de consultor do filme e tendo um ator a fazer de si próprio, Zimbardo, hoje com 82 anos, admitiu à imprensa o seu desconforto, o reviver da sua culpa por ter permitido o prolongamento da pesquisa para além do segundo dia. O Efeito Lúcifer demonstra - com um desenho de investigação que jamais seria permitido hoje, embora fosse aceitável há 44 anos - uma evidência difícil de aceitar: cenários que conferem um sentimento de anonimato, de descaracterização e de invisibilidade estimulam a barbárie. A Psicologia do Mal. Ou a disponibilidade humana para cometer atos antissociais, escudada no cumprimento de ordens ou em papéis que lhes sejam atribuídos (uniformes, não nomes) e lhes confiram autoridade.

Neste 'filme' não há lugar para as chamadas 'soft skills', ou o 'soft power'. Neste 'filme', poder e crueldade andam sempre de mãos dadas, como bem mostraram os abusos perpetrados na base americana de Guantanamo, em Cuba (e que mereceu a atenção da artista multimédia Laurie Anderson, através da exposição Habeas Corpus, inaugurada há dois meses), os da prisão de Abu Ghraib, no Iraque (que Zimbardo está agora a estudar) e os atentados terroristas (não apenas o 11/9, ou o de Paris).

Curiosamente, o professor da universidade de Stanford que presidiu a American Psychological Association e aparece em Ted Talks foi distinguido*, há 12 anos, com o Prémio IgNobel, entregue anualmente às descobertas científicas mais estranhas do ano. E a estudos que... primeiro façam rir. E só depois, pensar.

*tese de psicologia publicada na revista Nature, em 1997, sobre a personalidade dos políticos (avaliados de forma mais simplista que o cidadão comum) e em que um dos perfis estudados era o de Sílvio Berlusconi.

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