A equipe de Meirelles está no caminho certo para destravar a economia?

Há certo consenso, mesmo entre economistas críticos ao governo Michel Temer, de que os nomes indicados pelo novo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, para a sua equipe econômica são profissionais com um bom preparo técnico e ampla experiência no setor público.

As indicações agradaram em particular aos mercados financeiros - apesar de analistas do setor terem ficados frustrados pelo fato de a equipe não ter anunciado suas primeiras medidas ainda na terça-feira passada.

Mas nem todos os especialistas concordam com os caminhos que - a julgar pelo perfil de alguns dos indicados e pronunciamentos feitos até agora - o novo governo pretende adotar na tentativa de destravar a economia.

O economista-chefe do Itaú-Unibanco, Ilan Goldfajn, diretor do Banco Central (BC) durante o governo Fernando Henrique Cardoso, foi indicado para a presidência do próprio BC.

Para a Secretaria da Previdência e a de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda foram escolhidos dois economistas do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA, o think tank do governo federal): Marcelo Caetano e Mansueto Almeida.

Caetano é um renomado especialista no estudo da previdência do país e um defensor de reformas no atual sistema.

Mansueto (que colaborou na elaboração do programa de governo do PSDB nas últimas eleições) ficou conhecido com um blog respeitado por especialistas em políticas públicas no qual fazia críticas a política econômica do governo Dilma e a atuação do BNDES.

Um quarto indicado para compor o time é o ex-diretor do BC Carlos Hamilton, que terá o comando da Secretaria de Política Econômica.

Ao anunciar os nomes da sua equipe na terça feira, Meirelles garantiu que sua prioridade é recuperar as contas públicas e que apresentará uma proposta de reforma da Previdência em 30 dias.

Também disse que ainda estão sendo analisadas medidas para se elevar a arrecadação e que o governo deve encaminhar ao Congresso uma proposta de autonomia técnica do BC, formalizando "o que hoje é um acordo verbal", na sua definição.

Mas, afinal, equipe de Meirelles está no caminho certo para destravar a economia? A BBC Brasil ouviu três analistas que dão respostas diferentes a essa pergunta:

Imagem: AGÊNCIA BRASIL
Equipe econômica: (da esq. para dir.) secretário do Tesouro Nacional Otavio Ladeira, secretário de Política Econômica Carlos Hamilton, presidente do Banco Central Ilan Goldfajn, presidente Temer, ministro da Fazenda Henrique Meirelles, secretário executivo Tarcisio Godoi, secretário de Acompanhamento Econômico Mansueto Almeida e secretário da Receita Federal Jorge Rachid

SIM

Otto Nogami, Professor do Insper

"Trata-se de um time de notáveis, com amplo conhecimento da máquina pública. E que, portanto, vai saber fazer cortes 'inteligentes' no orçamento.

É bom que a equipe tenha nomes como Meirelles e Goldfajn, com grande experiência no setor bancário, porque eles têm trâmite e amplo conhecimento do mercado financeiro - que não é um inimigo, um fantasma, como pregam alguns, mas uma peça importante para o bom funcionamento da política monetária.

Eles terão pulso firme para fazer um ajuste fiscal duro, que na minha avaliação é o que o Brasil precisa para impedir um crescimento descontrolado da dívida pública e estabilizar a economia, gerando condições para a retomada dos investimentos.

É preciso cortar gastos e manter os juros mais altos por algum tempo para se evitar a volta da inflação - ainda que essas medidas sejam impopulares. Na medida em que a nova equipe for corrigindo a política fiscal, haverá uma volta da confiança dos investidores.

É claro que gera incertezas o fato da aprovação de algumas medidas emergenciais - como uma eventual recriação da CPMF (imposto sobre movimentação financeira)- depender da aprovação do Congresso. Mas o presidente Michel Temer e Meirelles têm plena capacidade para conseguir esse apoio. Só pode ser um pouco mais complicado no caso da reforma da Previdência, que é rejeitada junto a classe trabalhadora."

NÃO

Amir Khair, consultor na área fiscal e ex-secretário de Finanças da Prefeitura de São Paulo (gestão de Luiza Erundina)

"Não vejo com bons olhos que se coloque dois banqueiros (Meirelles e Goldfajn) à frente da política monetária, por que eles tendem a atender no governo aos interesses do mercado financeiro - como juros mais altos.

Também não vejo muita diferença na política que deve ser implementada por essa equipe e a do ex-ministro Joaquim Levi ou de Nelson Barbosa - que não tiveram sucesso na retomada do crescimento.

A equipe tem uma mentalidade monetarista e vai continuar apostando nos juros altos para conter a inflação.

Também vai tentar equacionar a questão fiscal cortando despesas, quando hoje o maior peso sobre as contas públicas são justamente os juros da dívida pública, as despesas financeiras do governo.

E mesmo que eles façam cortes inteligentes, outras fontes de pressão devem surgir no orçamento - como essa ação dos Estados para renegociar suas dívidas com a União.

No ano passado, a perda de arrecadação provocada pela recessão acabou aumentando bastante o deficit nas contas públicas, e com uma política econômica dessa, de aperto, provavelmente não haverá uma retomada do crescimento tão cedo.

Hoje os juros ao consumo são da ordem de 150% ao ano. Ninguém compra sem crédito a níveis razoáveis - e sem demanda, os empresários não investem. Programas de concessões e parcerias público privadas (PPPs) não serão suficientes para puxar toda a economia, como o novo governo parece esperar."

TALVEZ

André Perfeito, Economista-chefe da Gradual Investimentos

"A nova equipe econômica tem grande credibilidade frente ao mercado e poderá aproveitar essa credibilidade para inclusive fazer um ajuste um pouco mais gradual, de longo prazo. Nomes como o de Mansueto também podem ajudar a desenhar um ajuste um pouco menos traumático, fazer cortes mais inteligentes.

O ajuste duro que poderia ser feito, já foi feito. Agora temos um cenário diferente, com uma economia em recessão, menos pressão inflacionária e - portanto - mais espaço para uma redução dos juros, o que levaria também a uma melhora nas contas públicas (porque os juros tem um peso importante no orçamento).

Mas há duas grandes incógnitas sobre o projeto para uma retomada do crescimento.

Primeiro, se Temer e Meirelles terão capital político para aprovar as medidas do ajuste fiscal no Congresso - no governo Dilma, essa foi uma grande dificuldade. Segundo, se haverá condições para a retomada dos investimentos.

O empresário não investe porque as contas públicas estão saudáveis, mas sim se acha que haverá demanda. Um dono de restaurante só vai comprar outra geladeira se o restaurante estiver cheio.

Uma das apostas para ampliar os investimentos é um programa de concessões, mas mesmo que tudo der certo, levará um ano para o primeiro tijolo ser colocado em um projeto desse."

BBC