Londres elege 1º prefeito muçulmano de uma capital da União Europeia

APLondres elegeu nessa quinta-feira o primeiro prefeito muçulmano de uma capital de um país da União Europeia. Sadiq Khan, filho de um motorista de ônibus e de uma costureira, ambos paquistaneses que emigraram para o Reino Unido, venceu com sobra a disputa com o principal rival, Zac Goldsmith, do Partido Conservador.

De quebra, Khan recupera para o Partido Trabalhista, após oito anos, o controle da principal cidade do Reino Unido - ele substituirá o prefeito conservador Boris Johnson.

Com todas as urnas apuradas, Khan recebeu 56,8% dos votos, contra 43,2% de Goldsmith, contando os chamados votos de segunda opção. Pelas leis eleitorais, quando nenhum dos candidatos atinge mais de 50% dos votos, esse dado é contabilizado.

Ao assumir o cargo na manhã deste sábado, em cerimônia na catedral de Southwark, Khan disse que buscará representar todas as comunidades de Londres. Afirmou ainda que seu principal desejo é que todos os moradores tenham as oportunidades que a cidade lhe deu.

Integrante do Parlamento britânico desde 2005 e advogado, Khan, de 45 anos, liderou em uma disputa que em grande medida representa os dilemas sociais britânicos no século 21. De origens humildes, ele enfrentou um adversário que vem da bilionária e aristocrática família britânica Goldsmith.

"Nunca sonhei que alguém como eu poderia ser eleito prefeito de Londres. Agradeço a cada londrino que ajudou a tornar possível o impossivel", disse Khan em seu discurso de agradecimento após o anúncio.

"Tenho uma grande ambição para Londres que me guiará a cada dia como prefeito. Quero que todos tenham as oportunidades que esta cidade deu à minha família."

Humilde

Muçulmano praticante, o político foi mais bem-sucedido em cativar mais o eleitorado de Londres - sendo que atualmente mais de 12% de seus 8,5 milhões de habitantes professam a fé islâmica -, e em uma campanha que ganhou contornos polêmicos.
No último domingo, quando pesquisas já apontavam uma vantagem de dois dígitos para Khan, Goldsmith publicou um artigo no tabloide Mail on Sunday acusando os trabalhistas de simpatizarem com o terrorismo - um argumento que ficou ainda mais controverso por conta da ilustração do texto, com uma foto do ônibus atingido por um dos ataques suicidas que mataram mais de 50 pessoas em Londres em 2005.
A tática, porém, saiu pela culatra e até figuras públicas ligadas aos conservadores, como a ex-presidente do partido Sayeeda Warsi (que também é muçulmana), criticaram o artigo. Mas o premiê conservador David Cameron pôs lenha na fogueira ao dizer que Khan já havia dividido o palanque com radicais islâmicos.
Khan, por sua vez, se autointitula "o muçulmano britânico que enfrentará os extremistas" e acusou Goldsmith de tentar assustar e dividir o eleitorado.
A campanha eleitoral foi também marcada por acusações de antissemitismo contra os trabalhistas, algo que já resultou em suspensões de deputados e vereadores do partido, incluindo o ex-prefeito londrino Ken Livingstone.
Com seis irmãos e uma irmã, Khan cresceu em um apartamento de três quartos em Londres reservado a famílias de baixa renda. Mas cursou a universidade e trabalhou como diretor da ONG de direitos civis Liberty antes de se aventurar pela política - elegeu-se pelo distrito de Tooting, no sul de Londres.
Como advogado, fez fama em casos de suspeitas de violações de direitos humanos e de racismo pela polícia de Londres.

Goldsmith não poderia ter uma história mais diferente: eleito para o Parlamento em 2010, ele estudou apenas em escolas de elite, incluindo Eton, uma das mais caras do mundo e berço acadêmico da aristocracia britânica.
Mas Khan precisará governar também para os eleitores conservadores, sendo que parte deles questiona sua experiência e discernimento para ocupar o cargo. E Londres enfrenta problemas como a disparada no custo de vida e uma infraestrutura envelhecida para os padrões europeus.
O que o trabalhista já parece ter feito é ter se tornado um símbolo do multiculturalismo britânico, justamente no momento em que a Europa perde o sono com a ameaça do radicalismo islâmico em função dos ataques que recentemente atingiram Paris e Bruxelas.
BBC
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