O dia em que virei Joelma

Enrole, mas com classe. Pode-se contornar uma pergunta difícil pedindo para que as pessoas repitam a questão. Pode-se também adotar uma postura defensiva, fazendo com que os que estão perto reflitam sobre a legitimidade da pergunta e, consequentemente, do interrogador. Algo como “essa questão é um pouco pesada, você não acha?”. Também pode-se dar uma resposta desconcertante, mas não é o melhor quando o que se quer é poupar sentimentos dolorosos. Pessoas invasivas e inconvenientes povoam o mundo, mas precisamos colocar limites se não quisermos ser invadidos a todo instante. Os limites dados por mim, porém, não foram suficientes em um momento.

Início de noite e encontrei no elevador um casal de vizinhos. Como já os conhecia antes de morar no prédio e por lá ainda não havia feito amizade com ninguém, eles eram provavelmente os únicos com quem falava mais. Apesar disso, não éramos amigos, no máximo conhecidos que cumprimentavam-se com cordialidade. Começamos a timidamente conversar amenidades. Mero protocolo social pra passar o tempo. Tão bom seria se as pessoas se contentassem com uma educada saudação, pois sou do grupo que prefere calar a conversar bobagens.

Pois bem. A mulher perguntou como estava meu namorado. Respondi que ele estava bem, mas que nós não estávamos mais namorando. Aí vem uma indagação que tenho: Qual é a dificuldade que algumas pessoas têm para compreender que namoros e casamentos podem terminar? Que podemos seguir sós e felizes? Voltando ao elevador. A vizinha, um tanto incrédula, perguntou se era sério mesmo, se havíamos terminado. Ao confirmar, veio a pérola: “ Mas não vai fazer igual a Joelma, não é?”. Fiquei sem entender nada. Perguntei: “ Oi? Como assim? Ela repetiu: “ Não podem fazer igual a Joelma e a Chimbinha, né?”. Vi o marido dando uma cotovelada no braço dela e a essa altura eu estava voando ainda mais alto. Trabalhava e estudava durante o dia e a noite, então estava completamente por fora de tudo. Apesar de buscar notícias na internet, meu foco não era essas fofocas de artistas ou celebridades. Isso não é algo que tenha o hábito de ler, mas que chega a mim eventualmente, como chega a todos de alguma forma, creio. Não tenho interesse, enfim.

Após algumas semanas, fui entender o que havia acontecido naquele dia. Joelma e Chimbinha, da banda Calypso, separaram-se de maneira pública e escandalosa, em meio a relatos de agressões e abusos psicológicos, culminando em uma medida protetiva de Joelma contra o ex-marido. Notícia já requentada e eu sequer estava sabendo. A vizinha comparou-me ao casal famoso, talvez por achar que eu e meu ex pudéssemos agir da mesma forma. O fato é que passados quatro anos do fim do nosso relacionamento, há amigos que ainda não sabem de nossa separação, tamanha a nossa discrição. A vizinha, entretanto, não foi nada discreta ou agradável na pergunta. Há uma máxima que aprendi na vida: “Se não for para o bem, cale”.

Se pessoas abusivas abundam na vida, é preciso olhar para dentro e ver se temos algum medo em estabelecer limites. A inabilidade de colocar limites em comportamentos inaceitáveis pode ter relação com o medo de ser rejeitado. Talvez tenhamos sofrido algum tipo de abandono físico, como separação ou morte; ou mesmo emocional, como falta de afeto ou incentivo. Essas faltas vão dando um medo danado da rejeição. Às vezes queremos evitar conflitos a todo custo e por isso deixamos brechas para pessoas inconvenientes entrarem, entretanto o abuso emocional causado por elas também incomoda. Aos mais próximos e merecedores, podemos expressar esses limite com amor; aos demais, não precisa de jeito afetivo. Um corte seco, um falar firme sem gritar ou mesmo o afastamento lento pode ser uma boa. Não há problema em se afastar, uma vez que dá muito trabalho discutir, educar, e essa não é nossa função com todos que se aproximam da gente. O desprezo funciona e parece ser o melhor para pessoas distantes.

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