“Paidrasto?”

 

Foi-se mais um Dia dos pais, celebrado por muitos, ignorado por outros tantos e até combatido por alguns, que vêem nessas datas comemorativas uma artimanha do capitalismo para movimentar as vendas do comércio. E neste ano, como já tem se tornado uma tradição, as redes sociais apresentaram um verdadeiro “desfile de escola de samba” de “textões” em homenagem aos pais. Na linha do tempo do Facebook de qualquer um, era fácil reconhecer a ala das homenagens tradicionais, aquela em que os posts agregam apenas uma foto tirada com o pai e uma legenda simples, a exemplo de “Pai, eu te amo!”.

A ala dos saudosos, em que os filhos aproveitam a ocasião para prestar uma bela homenagem ao pai que já partiu, essa muito aplaudida pela plateia. A ala dos que fazem justiça à mãe que também é pai, ou ao pai que também é mãe. E a ala que mais gerou controvérsias, aquela dos textões em que, dispondo de sua liberdade de expressão, as mães usam as redes sociais para citar o “paidrasto” de seus filhos. Embora pareça muito moderno, o termo paidrasto – que é auto-explicativo – com certeza não deve ter sido cunhado recentemente. Mas o fato é que ele nunca esteve tão em voga quanto ultimamente. Em grande parte dos casos, os textos citando o paidrasto poderiam ser encarados, após uma boa interpretação de texto – prática cada vez mais rara ultimamente – como indiretas disfarçadas de homenagem. Simpáticas nas redes sociais, e um afago ao pai que é pai sem ser, esses textos podem ser, no entanto, a fonte de alguns problemas para os filhos.

É fato que as configurações familiares hoje são muito mais diversas. Há famílias de todos os tipos, inclusive daquelas em que um padrasto, por qualquer motivo, acaba assumindo o papel de pai do enteado. E o afeto entre padrasto e enteado deve sim ser celebrado. Como já diriam Caetano e Milton, “qualquer maneira de amor vale a pena”. Mas, por mais bonita que seja essa relação, não há como ignorar o fato de que uma criança tem um pai biológico. Salvos os casos em que o pai biológico é falecido, não assumiu o filho, ou simplesmente abandonou os direitos e deveres da paternidade, o pai biológico sempre vai ter um papel importante na vida da criança, seja pelos laços afetivos, ou mesmo pelo papel social. Sabe-se que, independentemente de todo o amor que recebe em casa, uma criança que se vê de uma hora para outra afastada do pai que um dia já foi presente tem grandes chances de desenvolver dores emocionais que a acompanharão ao longo da vida. Desta maneira, é natural pensar que, por maiores que sejam as desavenças entre a mãe e o pai, o vínculo do filho com as duas partes deve ser preservado. As crianças não devem ser expostas ao conflito entre duas pessoas a quem elas amam e em quem deveriam depositar a sua confiança absoluta.

E é aí que surge o problema atrelado às aparentemente inofensivas postagens em homenagem ao “paidrasto” no Dia dos Pais. Muitos destes textos escritos pelas mães tinham claramente o intuito de “mandarem um recado” a pais ausentes ou relapsos, da pior maneira possível. Se você tem uma mínima experiência nas redes sociais, já sabe que uma indireta na internet dificilmente resulta em um diálogo saudável, muito pelo contrário, ela tende a iniciar discussões abastecidas de discursos raivosos e insensatos. E a pergunta a serem feitas são: É desta maneira que duas pessoas adultas deveriam resolver um conflito sobre o bem-estar de uma criança? Quando foi que uma discussão raivosa solucionou um problema? Que mensagem as minhas palavras vão estar realmente passando ao meu filho? Será que é saudável que o meu filho encare o padrasto como um substituto ao pai biológico?

Não defendendo que pais divorciados que não tem uma boa relação refaçam os laços afetivos ou passem por cima de desentendimentos. Muito menos é a intenção deste texto dizer que um padrasto não deve ser enaltecido. Trata-se de levantar a possibilidade de que todos façamos uma análise um pouco mais sóbria e menos impulsiva antes de postar qualquer coisa nas redes sociais, principalmente quando meia dúzia de palavras tem o potencial de alimentar um conflito que pode afetar a saúde emocional de uma criança.

Photo by Victoria Borodinova from Pexels

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