Por que você deve incentivar a “cumplicidade masculina”

Para muitas pessoas, a expressão “cumplicidade masculina” remete à situação em que um homem encoberta as “puladas de cerca” de outro homem. E é bem provável que você esteja lendo este texto por ter acreditado que ele faria uma defesa desta prática “indefensável”. Não é minha intenção decepcioná-lo, caro leitor – ou cara leitora! – , mas o intuito destas linhas não é bem falar sobre infidelidade conjugal. O que eu proponho é ressignificar o termo “cumplicidade masculina” para que ele sirva a um propósito muito mais nobre.

É fácil ouvir por aí alguém dizendo que “as mulheres deveriam se inspirar na cumplicidade masculina, porque, ao contrário delas, os homens se ajudam e se protegem”. Este pensamento não é de todo equivocado. Se eu pedir a um amigo para me ajudar a fazer uma mudança, ou se eu precisar dele pra me ajudar a enfrentar uma briga de bar com outros dois caras, é quase certo que ele vá me ajudar – ao menos com a promessa de pagar uma rodada de cerveja depois. Entretanto, é preciso salientar que, na maioria dos casos, a cumplicidade masculina está resumida a isso e a comentários superficiais sobre futebol, carros, o trabalho e a vida de casado. E isso, como bem sabemos – ou deveríamos saber – não é um ideal de cumplicidade, não é mesmo?

Homens tradicionalmente não conversam entre si sobre suas angústias, decepções amorosas ou frustrações, como a maioria das mulheres costuma fazer. Para explicar como isso se dá, posso ser bastante didático: se eu “peguei” aquela mina na balada, eu COM CERTEZA vou contar para o meu amigo. Se eu não “peguei” aquela mina na balada porque ela me deu um toco, e eu fui embora deprimido e me sentindo rejeitado; eu só vou contar para o meu amigo que não “peguei” aquela mina na balada. Falar sobre sentimentos, afinal, não é prática bem vista no universo masculino, tão impregnado de antigos e inúteis preconceitos.

Muito se fala, e com razão, sobre como o machismo impacta negativamente a vida das mulheres. O que talvez possa soar como novidade para muita gente é que o machismo, mesmo sendo produto do homem, também o afeta de forma negativa. Ser homem na sociedade em que vivemos significa, entre outras coisas, não demonstrar qualquer tipo de fraqueza – “Engole o choro, menino! Homem não chora!” – , significa não dar atenção à própria saúde – “Quem vai ao médico é porque tá procurando doença.” – e acima de tudo, ser o provedor absoluto da casa, o homem que paga as contas. E o que acontece quando um homem não se encaixa em algum desses rígidos padrões que constituem a ideia de masculinidade? Ele se sente diminuído, não cumprindo o seu papel. Muitos homens, por exemplo, cedem à depressão depois de ficarem desempregados, pois isso significa deixar o sustento da família sob responsabilidade da mulher; o que seria, no seu entendimento, uma inversão completa de papéis. E são estes mesmos rígidos padrões que regem a masculinidade os responsáveis pela inabilidade da grande maioria dos homens em lidar com os próprios sentimentos, ou falar sobre eles.

Por sofrer em silêncio, muitos homens acabam se fragilizando emocionalmente e abrindo espaço para a depressão, a ansiedade e outras doenças. E o que piora tudo é a desinformação. Um levantamento feito pelo Ibope Conecta, que contou com a participação de 2 mil brasileiros a partir dos 13 anos de idade, revelou que 30% dos entrevistados do sexo masculino acreditam que a depressão está ligada à falta de fé ou não sabem avaliar se isso é verdade, enquanto apenas 17% das mulheres pensam desta forma. Eles também exibiram seu desconhecimento sobre o tratamento, que é baseado em medicamentos e terapia. Para mais da metade dos homens (55%), atitude positiva e alegria de viver são suficientes para enfrentar a chateação ou não sabem opinar sobre essa afirmação – seria cômico se não fosse trágico. Curar depressão com alegria de viver?

A falta de informação sobre saúde mental entre os homens se reflete nos números de óbitos. Dados do Ministério da Saúde apontam que a taxa de mortalidade por suicídio é de 2,4 mulheres a cada 100 mil, enquanto, para os homens, chega a 9,2 para cada 100 mil. Ou seja, os homens se matam cerca de quatro vezes mais.

Sim, a cumplicidade masculina existe, mas não como deveria ser. Nós homens precisamos conversar uns com os outros sobre os nossos problemas em comum, precisamos nos incentivar e nos apoiar. Por mais bem intencionada que seja a sua namorada, a sua tia, a sua prima, ou a sua irmã, ela nunca vai entender os problemas que você enfrenta como o seu amigo entenderia. Então, se você é homem e está lendo este texto, que tal perguntar de vez em quando ao seu amigo “Como você tá?”. Às vezes só o simples fato de se oferecer como escuta já faz uma enorme diferença na vida de alguém. Diálogo cura, sabia? Por mais diálogo, mais compreensão e mais cumplicidade no universo masculino! É preciso evoluir.

Photo by Travis Seera from Pexels

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