Conversa franca sobre o fim do ano…

Morre um ano, morremos nele dezenas de vezes, nesse vaivém esquisito com as coisas que vem de fora e mexem aqui dentro. Brigamos com o relógio, com a claridade da vida e com a escuridão da noite, desabamos diante do descontrole das coisas que desobedecem os caminhos traçados.

Fechados de corpo e alma, andaremos, mil lágrimas por dentro, ignorando as mãos do homem que mexe nos canteiros das ruas que nos esperam, numa insistência amorosa em manter o que nossos olhos não percebem, esperaremos mais, aguardaremos ruas com o destino que havíamos escolhido como destino.

Entraremos em uma padaria qualquer, sem percebermos que, teimosamente, pessoas amanhecem, indiferentes aos desastres que aconteceram em nossas cozinhas, teimosamente, acreditam na continuidade dos nossos cafés matinais.

Passaremos pelo quarto, ignorando o cheiro da roupa limpa, macia e confortável, ignorando quantos braços podem ter uma cama confortável em nossas noites de cansaço.

Seguiremos esperando mais e mais, porque mudaram a decoração da nossa sala interna sem autorização, nessa mistura de dor e raiva, fecharemos os olhos para o que sobra, sofreremos, também, pelo trânsito parado, pela chuva que não deu conta de cobrir nossos pés, pelas árvores que estão em seu outono e derrubam folhas em nosso quintal.

Após desabarmos centenas de vezes no silêncio do banho, com todo o direito que nos cabe, renasceremos, maiores e melhores, dando colo para quem fomos e oferecendo abraços para as passagens estreitas que fecharam nossos olhos.

Renascendo, entenderemos a reza daquela senhora, que acredita nas mudanças apesar dos pesares, sorriremos para o cara que cuida dos canteiros, sentiremos o cheiro do pão que sempre amanhece. Renascendo, acreditaremos no tempo das esperas e em nossa capacidade de seguir, aboliremos os relógios nos tempos de dor, apanharemos uma flor caída das árvores outonais, arrumaremos um copo com água que a conforte em seus desabamentos, abriremos a janela da cozinha e faremos um café, seguindo, na simplicidade de quem entende o descontrole, os desvios e atalhos, a morte que traz a vida.

Convidaremos nossas velhas conhecidas, conhecedoras dos caminhos e descaminhos da vida, falaremos sobre o frio dos dias difíceis e o calor dos recomeços, acreditaremos na morte que leva alguém de nossas vidas e na morte que nos tira da vida, acreditaremos no poder do abraço e do tempo, encontraremos, na fala, no entardecer e no silêncio, quem sempre fará parte do que somos, demoradamente e para sempre, com o sossego de quem sabe sobre o tempo das coisas…

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Imagem de capa: Danival Miranda

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