Entrevista: Paula Pequeno,da superação ao estrelato no vôlei

A bicampeã olímpica Paula Pequeno atua, desde 2013, no Brasília VôleiFabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

No calendário de atletas e amantes dos esportes, as Olimpíadas ocorrem a cada quatro anos. Menos para Paula Pequeno. A atacante da seleção brasileira de vôlei já se via em Atenas para a disputa dos Jogos de 2004 quando uma lesão no joelho, a poucos meses dos Jogos, atrapalhou seus planos: “A Olimpíada de 2008 foi muito especial, porque eu tive que esperar oito anos, em vez de quatro. Foi uma espera muito longa”.

Recuperar-se da contusão, voltar à seleção e garantir sua participação nos Jogos de 2008 (Pequim) foi só uma parte da grande conquista da atleta. Paula deixou a China com a medalha de ouro no peito e o prêmio de melhor jogadora do torneio, a MVP [sigla em inglês para “Jogadora Mais Valiosa”] do vôlei olímpico feminino.

Aos 34 anos, Paula atua no Brasília Vôlei, time de sua cidade natal, desde 2013, e diz não se acomodar com as conquistas ao longo da carreira. “Cada jogo tem seu sabor, seu nervosismo, nossa maneira de preparação. O objetivo continua jogo após jogo, temporada após temporada, enquanto a gente gosta do que faz”, diz a dona de uma medalha de ouro nos Jogos Pan Americanos de Guadalajara (2011) e de mais dois ouros nos Grand Prix de 2005 e de 2008. 

Em entrevista à Agência Brasil, Paula contou como o time dos Jogos de 2012, em Londres, superou a pressão para chegar ao bicampeonato olímpico: “[...] fizemos um acordo de que ninguém iria ler nenhuma reportagem, nenhuma notícia e que nos focaríamos no que tínhamos que fazer, porque só a gente sabia o que estava passando ali”.

O Caminho do Pódio é uma série de entrevistas com nove medalhistas olímpicos brasileiros que a Agência Brasil publicará até o dia 10 de maio.

Agência Brasil: Qual é a sensação de subir em um pódio olímpico?
Paula Pequeno: Na hora em que toca o Hino, que cai a ficha mesmo de que nós ganhamos uma Olimpíada, é um sentimento difícil de traduzir. Na hora, passa na cabeça toda a trajetória para chegar até ali, o desgaste, a dedicação. Passa um filme na nossa mente, até a gente chegar naquele ponto, a glória máxima.

Agência Brasil: O que significa ser medalhista olímpico no Brasil, um país onde os atletas, principalmente no começo, ainda têm muita dificuldade para viver só treinando e competindo?

Paula: Muitos esportes não têm o reconhecimento que merecem, mas o vôlei já é profissional há muito tempo. Então, realmente as atletas profissionais conseguem viver bem só jogando. O lado ruim de ser atleta no Brasil é a ingratidão do brasileiro. Culturalmente, o brasileiro é muito imediatista, tem a memória fraca e não costuma reconhecer os atletas durante muito tempo. Esse imediatismo acontece [na medida em que] quando a gente está bem, tudo ótimo; se não está, tudo o que a gente fez até ali não é valorizado. Nesse ponto, eu acho que é preciso mudar, e muito.

Agência Brasil: Você se sentiu vítima disso em algum momento da sua carreira?

Paula: Sim. Minhas duas últimas temporadas foram bem ruins, bem abaixo do que eu poderia ter rendido, por inúmeros motivos. E ninguém quer saber o motivo de você não estar rendendo, o porquê de você não estar conseguindo fazer o que sabe. São só críticas e cobranças, reconhecimento zero. Então, eu senti isso na pele no ano passado. Este ano, graças a Deus, eu consegui me reerguer, fiz uma Superliga bem melhor. Isso acalenta meu coração: saber que, mesmo tendo passado por isso, eu superei, dei a volta por cima e consegui me ver jogando novamente em alto nível.

Agência Brasil: Como foi conviver com uma lesão às vésperas de uma Olimpíada? Como você conseguiu dar a volta por cima depois de um golpe desses?


Paula: Foi uma época muito difícil. Superar aquilo, na época, foi realmente difícil porque, quando você é cortada por uma contusão, tem aquela sensação de impotência, de não poder brigar por uma vaga ou por um título. Então, foi muito duro. Na época, eu tinha começado o namoro com o meu marido e ele e minha família me apoiaram muito. Fiquei ainda mais apegada a Deus, à minha família, meu marido. Foram me dando força para continuar na caminhada. Percebi que não era um sonho cancelado, era um sonho adiado, que eu teria que ter paciência e força para superar tudo aquilo e dar a volta por cima.

Agência Brasil: Qual momento de uma das olimpíadas que você participou que você não esquece?

Paula: A Olimpíada de 2008 foi muito especial, porque eu tive que esperar oito anos, em vez de quatro anos. Foi uma espera muito longa. Eu me lembro da gente no pódio, que foi muito emocionante, e o momento que eu soube que tinha sido MVP. Nunca tinha acontecido na história. Além de muito feliz com a nossa vitória, Papai do Céu pegou esse presente, embrulhou e botou um lacinho.

Agência Brasil: E como foi esse momento?

Paula: O vôlei masculino também já tinha terminado o campeonato e nós fomos passear, para comemorar. Estávamos eu, Escadinha [Serginho, do Sesi/SP, levantador da seleção masculina na época], Giba, Carol Albuquerque e o Bruninho. A gente estava saindo e meu fisioterapeuta disse '‘parabéns’' e eu, sem entender, respondi '‘parabéns para você também’'. Pensei que era por causa da medalha que tínhamos ganhado. Aí ele disse: '‘estou achando que você não sabe. Você foi MVP da Olimpíada!'. Foi uma choradeira imediata! O nosso time voou baixo na Olimpíada de 2008, né? Todas mereciam e por algum motivo escolheram dar o prêmio para mim. Foi muito emocionante, porque eu lembrei de tudo que eu passei até chegar ali.

Agência Brasil: Houve algum momento do time de 2012 importante para a conquista da medalha de ouro?

Paula: Teve um momento crucial. Foi quando perdemos para a Coreia e estávamos arriscadas a não nos classificarmos [para a próxima fase]. Quando chegamos ao vestiário todas estavam chorando muito, muito mesmo. E aí a Adenízia colocou uma música gospel chamada 'Ressuscita-me'. A música começou a tocar e a gente se emocionou ainda mais. Nos abraçamos, choramos, foi uma troca de energia muito grande ali dentro. No mesmo dia, à noite, nos reunimos, só as meninas. Ficamos de mãos dadas e fizemos orações todos os dias até o fim das Olimpíadas. Foi ali que a gente se uniu, porque vimos que estávamos sendo massacradas no Brasil e estávamos vivendo uma pressão muito grande ali, porque éramos as atuais campeãs. E mesmo sendo já campeãs olímpicas, o brasileiro massacrou a gente de tal maneira que fizemos um acordo de que ninguém iria ler nenhuma reportagem, nenhuma notícia e que focaríamos no que tínhamos que fazer, porque só a gente sabia o que estávamos passando ali. Criamos uma muralha e nos blindamos completamente. E foi ali que conseguimos canalizar nossa energia de novo para vencer o campeonato.

Agência Brasil: Qual é a motivação de uma atleta que já ganhou duas Olimpíadas e já foi eleita melhor jogadora dos jogos?

Paula: Quando você ama o que faz, não importa o campeonato. Cada jogo tem seu sabor, seu nervosismo, sua maneira de preparação. O objetivo continua jogo após jogo, temporada após temporada, enquanto a gente gosta do que faz. A gente nunca deixa de sonhar, de ter objetivos, metas. No meu caso, eu procuro sempre traçar novos objetivos, novas metas, para que essa motivação esteja sempre aguçada.

Agência Brasil: Na sua opinião, o vôlei feminino, por todas as conquistas, já atingiu um protagonismo no esporte nacional?

Paula: É um esporte extremamente sólido e profissional. A gente consegue viver bem só com o voleibol. Acho que as emissoras poderiam dar um espaço maior para que houvesse mais reconhecimento. Quanto mais transmitido for, mais o esporte é difundido, as atletas ficam conhecidas e reconhecidas. Mas, de uma maneira geral, acho que o vôlei é um dos esportes prediletos do Brasil.

Agência Brasil: O que precisa melhorar no Brasil para que mais jovens tenham oportunidades de desenvolver seus talentos no esporte?

Paula: Primeiro, é o investimento. Patrocínio, investimento em centros de treinamento. [Precisa] as confederações de todas as modalidades conseguirem fazer um trabalho competente para revelar novos atletas em todas as modalidades, oferecer uma estrutura melhor de preparo para cada atleta. Isso vai fazer com que os adolescentes não só se apaixonem pelo esporte que escolheram, mas consigam também ter uma boa vida seguindo esse sonho. O que precisa melhorar no Brasil é visibilidade, investimento e apoio ao esporte e ao atleta.

Agência Brasil: Você teve que parar sua carreira por um momento para poder se tornar mãe. Foi uma decisão difícil? Você temeu não voltar no mesmo nível?

Paula: Na verdade, minha filha veio de atrevida, né? (risos) Foi um baque, um susto. Não foi programado, mas quando aconteceu eu tive muito apoio da diretoria do time no qual eu jogava na época, o Osasco. Me ajudaram em tudo que eu precisei e joguei até o sexto mês de gravidez. Pouco depois do parto, 24 dias depois, eu já estava treinando. Em momento algum eu temi que não voltasse a jogar, mas tinha medo, sim, de perder espaço. Porque, querendo ou não, você fica um bom tempo fora e o Brasil tem material humano muito bom. E, na verdade, o que aconteceu foi que, depois da gravidez, o meu corpo mudou, ficou muito mais atlético, mais esguio e eu consegui uma performance ainda melhor. Acabou sendo muito positivo pra mim.

Agência Brasil: O que você espera encontrar nos jogos do Rio em termos de organização e de torcida do povo brasileiro?

Paula: Eu tenho muito receio dessa Olimpíada no Rio de Janeiro, sinceramente. Porque eu tenho minhas dúvidas se a cidade está realmente preparada para receber atletas de tão alto escalão. Não sei se a parte de trânsito vai virar um caos total, fora alguns atrasos das obras, o gasto excessivo, que depois teremos que ficar pagando durante alguns anos. Essas coisas me deixam meio temerosa. Mas acredito que a torcida vá fazer bonito e espero que as pessoas tenham consciência de que os atletas são muito importantes e merecem todo o respeito do mundo.

Marcelo Brandão - Agência Brasil
Edição: Jorge Wamburg
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