Mulher, TPM e enxaqueca: é preciso derrubar o estigma sobre elas

Por Camila Gabrielle Damasceno Pereira Moura (Editora de Saúde)


Quem nunca sentiu uma dor de cabeça? Mesmo quando passageira ela sempre compromete a concentração em tarefas simples do dia a dia. Agora imagina sentir dor de forma intensa e crônica, ou seja, por mais de 15 dias no mês e sem dar trégua nem com analgésicos comuns. 

Essa é a realidade de muitas mulheres, cerca de 4 entre cada 10 sofrem com a enxaqueca, especialmente antes dos 35 anos¹. A enxaqueca é a terceira doença mais incapacitante do mundo², gerando impacto na vida social e familiar de mais de 30 milhões de pessoas no mundo³.

Por conta da oscilação hormonal, no ciclo menstrual, muitas vezes as dores de cabeça são mais graves, acompanhadas por mais sintomas do que crises de dor fora da menstruação. Aliás, sintomas como fotofobia, enjoos, sensibilidade ao som e ao barulho caracterizam a enxaqueca, inclusive a sensibilidade a estímulos que a princípio não deveriam ser dolorosos, como o simples fato de prender os cabelos ou um colar no pescoço. Este fenômeno é chamado de alodinia, e é possível indicador de cronificação da doença4. 

A relevância sobre o tema motivou um grupo de neurologistas a realizar um estudo com 55 para comprovar a relação da alodinia com a enxaqueca no período menstrual.

“O estudo revelou que mulheres que sofrem de enxaqueca relacionada à menstruação apresentaram maior taxa de alodinia durante a crise de dor, em comparação a mulheres que não têm enxaqueca relacionada ao período menstrual4. Ou seja, essas mulheres sentem mais sensibilidade na pele e sensação de dor causada pelos óculos de grau ou por deixar os cabelos presos, por exemplo, do que as mulheres que tem enxaqueca fora do período menstrual”, explica a Dra. Eliana Melhado, neurologista, autora do livro “Cefaleia na mulher” e uma das autoras do estudo.

Mas por que isso é importante? Segundo a neurologista, porque a identificação da alodinia impacta na condução do tratamento da enxaqueca. “Tratamentos direcionados apenas com medicamentos à base de analgésicos comuns, por exemplo, não ajudam a diminuir a sensibilidade corporal, assim como as demais manifestações da alodinia”, explica a médica. Além disso, há o impacto na qualidade de vida das mulheres, especialmente no período menstrual, onde elas sofrem mais e ainda são estigmatizadas por suas queixas.

Tratamentos para a enxaqueca

A Dra. Eliana destaca que em primeiro lugar é preciso combater a crença de que sentir dor é normal. “Sentir dor nunca é normal. E para aqueles que convivem com dor, sempre é possível melhorar a qualidade de vida do paciente, mesmo daqueles que tem a enxaqueca já cronificada. Para isso, é preciso seguir com persistência o tratamento junto a um neurologista experiente no tratamento da doença”.

Entre as opções de tratamento existem medicamentos preventivos como antidepressivos, neuromoduladores, betabloqueadores, anticorpos monoclonais e também a toxina botulínica A, indicada nos casos crônicos, cuja aplicação atua como dessensibilizador da dor, diminuindo frequência e intensidade das crises dolorosas. Por outro lado, analgésicos, anti-inflamatórios, ergotaminas e triptanos são usados para combater a dor no momento da crise.

Referências

¹Migraine was ranked as the second cause for years of life lived with disability (YLDs) in 2016 in the world [2].

2Leonardi M, Raggi A (2019) A narrative review on the burden of migraine: when the burden is the impact on people's life. J Headache Pain 20(1):41

3Classificação internacional de cefaleias - 3a edição -2018

4Allodynia in Menstrually Related Migraine: Score Assessment by Allodynia Symptom Checklist (ASC-12)


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